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Juiz arquiva caso de estupro por falta de provas e mãe contesta: 'Passei a fazer Direito porque quero Justiça'

05 junho 2019 - 16h30Por G1/MS

A mãe pede licença por alguns segundos e o telefone fica mudo. Ela então se distancia da filha, que ainda estaria sofrendo com os "traumas do abuso sexual". Em seguida, reinicia a conversa. Desde outubro de 2016, esta é a rotina de uma estudante de direito, de 31 anos, em todas as ocasiões que precisa falar sobre o suposto crime. Nessa terça-feira (4), após quase três anos entre investigação, indiciamento e o andamento do processo, houve o pedido de arquivamento.

O caso teria ocorrido em outubro de 2016, em uma escola municipal do bairro Aero Rancho, região sul de Campo Grande. Na época, a menina estava com 7 anos de idade. A mãe conta que desconfiou de "alguns comportamentos estranhos" assim que foi transferida como encarregada de Corumbá para a capital sul-mato-grossense, porém, o ápice foi no dia 26 daquele mês, quando a avó da menina telefonou para ela no serviço.

"Minha mãe ligou desesperada, falando que ela estava chorando muito e fazendo as necessidades dela na roupa. No outro dia, não queria ir para escola. Eu também percebi uma vermelhidão perto da vagina e a levei no posto de saúde. O médico a examinou e falou que era uma assadura. Ela então faltou alguns dias e depois voltou para escola. As coisas foram piorando, ela acordava de madrugada, falava o tempo todo que tinha um homem na casa, se assustava demais com qualquer coisa", afirmou ao G1 a mãe.

Pouco tempo depois, a mãe conta que chamou uma vizinha para conversar. "Ela é agente de saúde e eu fui perguntar se ela não conhecia alguma psicóloga que eu pudesse levar a minha filha. Eu comentei que eu era uma pessoa ansiosa e talvez isso poderia estar acontecendo com ela e também falei que a minha filha estava agindo igual a um bebê, pedindo comida na boca, colo e fazendo xixi na roupa. Em seguida, ela me disse que iria acompanhá-la por uns 15 dias e eu questionei o motivo", relembrou.

Na sequência, a mãe conta que a agente de saúde informou a ela sobre uma possível notificação na Secretaria Municipal de Saúde (Sesau). "Ela soube que o médico que atendeu a minha filha desconfiou de um possível abuso e havia feito uma notificação. Eu fui atrás desse prontuário e conversei com a minha filha em casa, eu disse: a mamãe já está sabendo o que aconteceu no colégio e você pode me contar tudo", comentou.

Ainda conforme a denunciante, a menina relatou o possível estupro. "Ela falou que o professor estava passando a mão nela e que, se ela contasse, iria matá-la. Nós fomos ao conselho tutelar primeiro e lá ela conversou sozinha com a conselheira, que nos encaminhou imediatamente para a Depca [Delegacia Especializada de Proteção à Criança e o Adolescente]. Minha filha passou por reconhecimentos, teve que ir de novo e fez todos os procedimentos", disse.

 

Dia do reconhecimento

 

O último, ainda conforme a mãe, ocorreu em janeiro deste ano. "Eu a acompanhei, mas, ela ficou sozinha em um canto da sala e reconheceu o professor. Foi imediato, ela chorou na hora e falou para os policiais. Ocorre que, ela não sabia explicar se ele passou a mão por dentro da roupa ou por fora. Outra coisa é que ela confundiu o nome dos professores e todos eles foram intimados. O que cometeu o crime prestou dois depoimentos. Da primeira vez disse que a conhecia, só que não fez nada. Na segunda vez, já foi com advogado e mudou tudo o que disse", garantiu.

A peregrinação entre delegacia e os outros órgãos envolvidos fez com que a mãe iniciasse o curso de Direito. "Eu comecei a faculdade depois de tudo isso, pois, vi que o caso da minha filha iria ser mais um que ninguém ia fazer nada. A promotoria devolveu o caso e depois saiu essa decisão judicial ontem, que me deixou muito nervosa. Acho que acharam relevante o fato dela ter confundido os nomes, mas, era só uma criança de 7 anos. Eu só quero provar que esse caso realmente aconteceu e acho inclusive que este professor pode estar fazendo isso com outras crianças. Não posso aceitar que arquivem o caso", lamentou.

 

Recentemente, segundo a mãe, houve uma viagem a trabalho a Coxim e a filha teve novas crises. "Eu trabalho em um escritório de advocacia, já estou indo para o 4° semestre. Fui viajar com a minha patroa a trabalho e minha menina ficou. Me ligaram, dizendo que ela teve novas crises, do nada. Eu não entendo como isso pode acontecer. Se fosse para audiência, olhassem tudo e depois absolvessem por falta de provas, tudo bem. E ele ainda foi indiciado durante o processo, eu vou contestar, sim", finalizou.

 

Indiciamento do professor

 

Conforme a polícia, o inquérito foi relatado e, no dia 14 de fevereiro deste ano, o professor de 38 anos foi indiciado pelo crime de estupro de vulnerável. No teor do inquérito, consta que a vítima alegou "que o suspeito a abraçava muito, apertava seu braço, cheirava seu cabelo e apertava o bumbum".

Em seguida, o promotor devolveu o documento, pedindo que a "suposta vítima fosse ouvida novamente, questionando se o toque foi por cima ou por baixo da roupa, se havia outras pessoas por perto, entre outras perguntas". Novamente, com o relatório complementar, o inquérito foi relatado e reencaminhado ao Fórum no dia 9 abril. Houve o andamento do processo e o arquivamento ocorreu nessa terça-feira (4).

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