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Violência por dizer “não” ao ex-namorado fez Ana largar tudo e sair pelo mundo

16 setembro 2019 - 17h30Por Lado B

Aos 19 anos, Ana Perez entrou para os números de violência doméstica, em Bogotá, na Colômbia, onde os casos de violência e assassinatos contra mulheres alcançam números bem próximos da realidade brasileira. Hoje, com 21 anos, ela está de passagem por Mato Grosso do Sul, estado que ocupa o terceiro lugar na lista de quem mais agride.

 

Faltavam poucos semestres para Ana terminar o curso de Administração Pública em seu país de origem, quando ela chegou ao limite por causa da violência e decidiu largar tudo para recomeçar,  longe de ouvir que apanhou “porque foi atrás” ou “porque provocou” o ex-namorado. Apenas com uma mochila nas costas, ela já passou por cidades do Peru, Bolívia e agora o Brasil. Como ela conseguiu forças para abrir o coração e ajudar outras mulheres ela conta na série Voz da Experiência.

(Foto: Camila Vilar)(Foto: Camila Vilar)

“Sou da Colômbia, nasci num povoado pequeno chamado Pizarro, perto do mar. Quando eu fiz 16 anos fui morar em Bogotá, uma cidade grande, caótica, com aspecto cinza e um distanciamento entre as pessoas. Não há tempo para falar, compartilhar e fazer coisas importantes que não importantes para nós.

Em Bogotá também tive muitas experiências boas, porém vivi as dores da violência contra mulher. Eu era pequena, muito nova, estava compreendendo as coisas da vida, até porque eu tinha uma rotina muito diferente da cidade pequena de onde vim.

Lá em Bogotá fui fazer Administração Pública e dei início a um trabalho coletivo com comunidades indígenas e comunidades que tinham interesse na produção orgânica de alimentos. A partir disso, fizemos muitas coisas porque conseguimos fazer esse relacionamento entre a Administração Pública e a vida das pessoas.

Nesse tempo, tive um namorado. Ele estudava na mesma faculdade e eu estava muito apaixonada. Foi um relacionamento muito intenso, a gente compartilhava muito tempo juntos e eu achava que tínhamos um pensamento comum.

Mas vivemos um relacionamento que acabou rápido por causa dessa mesma intensidade e eu senti que não tinha mais vontade de continuar. Então eu falei para ele que estava sentindo que não dava mais. Eu pedi um tempo para pensar no que eu estava sentindo. Nesse momento, eu viajei porque estava de férias e fui para casa de meus pais.

Ele não aceitou o tempo. Passou a me cercar, ligar e chamando a todo momento para saber o que eu estava fazendo. Eu falei para ele que estava vivendo o meu momento com a minha família, mas ele seguiu me pressionando e querendo me controlar. Foi quando eu disse “não”, que não queria mais estar com ele. Enfim, terminamos assim.

 

Hoje, Ana tira um tempo da faculdade para viajar o mundo e viver uma nova experiência. Hoje, Ana tira um tempo da faculdade para viajar o mundo e viver uma nova experiência.

Ele foi até a casa dos meus pais para me encontrar, mas eu disse que não queria estar com ele. Achei que ele tinha compreendido isso. Depois das férias, voltei para o norte da Colômbia e fiquei um mês realizando meus trabalhos na comunidade indígena. Estava muito confortável comigo e sentindo vontade de fazer tudo achando que o mundo era lindo. Quando voltei para Bogotá estava muito feliz e carregada de coisas boas, mas ele voltou a me procurar. Mandava mensagem, tentava me encontrar na faculdade, ficava me observando de longe e me seguia.

Um dia, eu estava na faculdade e ele pediu para conversar, estava bêbado. Algumas pessoas na faculdade questionavam o que eu tinha feito com ele, como se a culpa fosse minha dele estar bebendo.

Outro dia ele não gostou de um momento em que me viu conversar com um menino, que eu estava apenas trocando ideia. Passou a dizer que queria voltar e ter o relacionamento que tínhamos antes.

Eu me propus a conversar com ele, mas quando ele não estivesse bêbado. Depois disso ele passou a me pressionar para que eu me despedisse dele com um abraço, mas eu não queria abraça-lo. Gritei, o segurança da faculdade apareceu e eu fui embora.

 

Oito dias depois, ele apareceu novamente bêbado. Nesse dia eu saí da faculdade dez horas da noite e peguei um ônibus para voltar a minha casa. Antes de pegar o ônibus o vi na faculdade, mas estava tranquila e fui para casa.

O ônibus para a cerca de três quadras da minha casa. Quando eu desci vi duas pessoas em um carro e em pouco tempo o reconheci. Tentei voltar, mas o ônibus já tinha partido. Então, segui o meu caminho. Ele veio até mim e me encontrou.

Ele perguntava, insistentemente, a razão para eu não ficar mais com ele. Questionava se eu estava apaixonada ou me relacionando com outra pessoa. Dizia que eu estava mentindo. Nesse instante ele começou a falar comigo apertando os meus braços, me puxando e ficando muito próximo de mim.

Ensaio em Campo Grande foi feito para eternizar a liberdade. (Foto: Camila Vilar)Ensaio em Campo Grande foi feito para eternizar a liberdade. (Foto: Camila Vilar)

Em algum momento ele puxou meus ombros como se tentasse me beijar, mas acabou mordendo meu rosto com muita força, como se quisesse arrancar minha boca. Nesse momento, eu empurrei ele e sai correndo, mas ele me puxou pela mochila.

Eu fiquei sem saber o que fazer, nunca passou pela minha cabeça que ele pudesse fazer isso. Então pensei em convencer ele a me deixar ir embora, ele fingiu que estava me compreendendo e quando eu menos esperei ele me puxou para dentro do carro onde havia um amigo dele. Ele disse que me levaria para minha casa, e eu tentava me tranquilizar.

 

Ele seguiu me pressionando que eu tinha que conversar. Então decidi conversar para que aquilo terminasse. De repente, ele tentou me beijar novamente, eu me defendi e machuquei o seu nariz. Ele continuou brigando comigo, seu amigo estava muito bêbado e dirigindo entre os carros de maneira que eu pensava que iriamos bater. Eu não sabia mais o que fazer, naquele momento, estava com muito medo.

Passaram muitas coisas nesse trajeto. A todo momento eu pensava o que fazer para sair do carro. O amigo dele a todo momento falou que estava cansado da nossa briga e nos deixaríamos na casa dele. Então eu decidi usar o celular para pedir ajudar e sair correndo do carro quando ele parasse. Mas ele me viu mexendo e pegou muito forte o meu celular. Eu estava cansada, nervosa, decidi reagir e ele passou a me enforcar, mas, com tanta força, que parecia querer arrancar a cabeça do meu corpo.

Seu amigo, por fim, despertou e fez ele me soltar. Eu tremia, chorava muito, mas não eram lágrimas conscientes, eu estava em crise e não sabia o que fazer. Eu tinha só 19 anos e nunca havia passado por algo parecido.

Cheguei em casa chorando, contei a uma amiga o que tinha acontecido e, no dia seguinte, fui a faculdade decidida a procurar a ajuda. Fui até a Secretaria da Mulher buscar informações sobre o que eu tinha que fazer, no entanto, me disseram que não era possível fazer nada porque eu não era casada e não tinha sofrido violência sexual. Depois, fui à polícia, mas ouvi que a culpa pela agressão era minha porque eu aceitei falar com ele.

Três meses depois chegou um papel a minha casa que dizia que ele não poderia chegar perto de mim, o que me entristeceu muito, porque em três meses muitas mulheres morrem vítimas de seus agressores.

Eu sentia tanta culpa que não tinha coragem nem de contar para os meus pais, e enfrentei a situação de um jeito que eu achava ser a melhor maneira.

Meses depois da agressão, passei o que acontecia com mulheres que sofriam violência. Se eu, que estudava a burocracia do País, não fui livrada da agressão, imagina mulheres que precisam trabalhar, cuidar dos seus filhos e apanham todos os dias.

Decidi então fazer uma ação de reconhecimento ao Dia da Mulher com relatos de mulheres que passaram por assédio e agressão. As pessoas começaram a escrever relatos e isso ganhou uma dimensão muito grande dentro do coletivo onde eu desenvolvia atividades. Isso trouxe um novo problema, porque um movimento da faculdade foi contrário a exposição dos agressores e situações.

Depois da polêmica, o meu ex-namorado fez uma publicação longa nas redes sociais se solidarizando com os homens que foram expostos como agressores, além de outras coisas que eram impossíveis de acreditar.

Após isso, comecei a receber muitas agressões na faculdade, inúmeros amigos pararam de falar comigo porque ninguém compreendeu que eu fui agredida. E eu não compreendia como as pessoas eram capazes de aceitar aquilo. Você não precisa ser agredido para defender alguém, basta ser humano.

Depois disso eu não me sentia mais bem na faculdade. Eu sentia todo o peso da violência, do julgamento das pessoas e distanciamento com as pessoas agredidas. Minha ansiedade estava virando uma depressão. Então tomei a decisão de não suportar mais aquilo.

Um dia, prestes a fazer um trabalho na faculdade, peguei o meu celular e avisei aos meus pais que deixaria a faculdade durante um semestre para viajar. Ele me disse que se eu quisesse eu tinha capacidade para fazer isso e aquele apoio foi tudo. Decidi conhecer a América do Sul e passei a viajar pelos países. Quando falei a verdade para mim eu consegui falar sobre a minha história para outras pessoas. Se eu me arrependo? De jeito nenhum, hoje tenho 21 anos e amadureci muito. Por mais que o passado não mude, eu sinto que consigo chegar até o coração de outras mulheres”.

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