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Corumbaenses mantém tradição há mais de um século ao banhar São João no rio Paraguai

24 junho 2016 - 15h18

Há mais de um século um fenômeno gerado pela fé se perpetua em Corumbá. Entre a noite de 23 e madrugada de 24 de junho, as águas do rio Paraguai, no coração do Pantanal sul-mato-grossense, se transformam no rio do Jordão, aquele relatado na Bíblia onde São João Batista batizou Cristo. Ao menos é o que acredita mais de uma centena de devotos que renovam a crença no santo num ritual singular de fé só registrado na cidade pantaneira.

 

Prova material do caráter secular desta festa é a imagem de São João da família Laura Helena Moura Amorim. Com 110 anos de existência, a imagem do santo já está na quarta geração da família oriunda de Cuiabá. Os bisavós de Laura é que iniciaram a festa no pantanal da Nhecolândia , desde que a família para a cidade, a imagem passou a ser levada para ser banhada no rio Paraguai.

 

“Como minha mãe está doente, eu e mais dois irmãos assumimos a festa. Agora, vamos dar continuidade com mais fé pedindo pela saúde de nossa mãe e isso foi um pedido feito hoje. Queremos muita saúde para continuarmos com essa festa por mais cem anos. São João é um santo muito milagroso, basta fazer o pedido com fé”, ensina a devota.

 

Desde cedo, os corumbaenses aprendem a cantar a ladainha que embala a descida dos andores pela histórica ladeira Cunha e Cruz rumo à prainha do rio Paraguai: “Se São João soubesse/Que hoje era seu dia/Descia do céu à terra/Com prazer e alegria (...)”.

 

Tem devoto, mas tão devoto que mora em alameda cujo nome é? Advinhe! Isso mesmo: São João. De lá vieram os irmãos Paulo e Virgínia, filhos da dona Berenice, tradicional festeira que iniciou sua devoção com a avó e nisso já se vão cerca de 80 anos em torno da mesma imagem do santo passad de geração em geração.

 

“A gente não pode deixar terminar essa tradição por isso todo ano a gente vem caminhando lá do bairro Maria Leite até o Porto. Já tem uma nova leva de festeiros se formando dentro da família, o que nos enche de orgulho”, declarou Paulo.

Em cada grupo que segue, a imagem de São João é o destaque nos andores que são enfeitados com muitas flores e ornamentos, cuja mistura de branco e vermelho, cores atribuídas ao santo, predomina. E não importa se a imagem é grande ou pequena, tem algo que não muda em cada um dos andores que passa pela ladeira Cunha e Cruz. O senhor Carlos Padilha Campos e esposa desceram discretamente para a prainha com uma imagem de cerca de 10 centímetros de altura.

 

“O santo é pequeno, mas a fé é grande”, resumiu o devoto que afirma ter recebido a imagem de um padre em Campo Grande. “Já a levei até ao hospital onde minha tia está em tratamento e, desde então, ela vem melhorando com a graça de Deus e São João”, conta Carlos que veio do bairro Maria Leite.

 

O cortejo, que é tradicionalmente acompanhado pela ladainha com alternância entre o canto sacro e profano, é aguardado por centenas de pessoas ao longo da ladeira e prainha. Muitos para assistir, mais um ano, ao ritual de fé e outros para aproveitar e passar embaixo dos andores. Conforme a crença dos corumbaenses esse gesto repetido sete vezes em andores diferentes garante casamento às mulheres solteiras. Mas não é apenas isso, muitos mentalizam outros desejos e, assim, ao longo da ladeira, grandes filas se formam com pessoas de todas as idades, de crianças a idosos.

 

E, se no trajeto da subida ou descida, um andor encontrar com o outro, a tradição manda que eles se reverenciem. Ao se aproximar da meia-noite, muitas dessas cenas se repetem no auge da festa durante minutos que antecedem à meia-noite, que é rompida com um show pirotécnico anunciando a chegada de 24 de junho, dia dedicado a São João.

 

Depois de banhar o santo nas águas do rio é comum ouvir dos devotos: “cumprimos com nossa obrigação mais um ano”. E com esse sentimento de dever realizado, os grupos voltam para as casas onde a festa continua com muita fartura de comida e música.

 

O ato simbólico de lavar  imagem de São João nas águas do rio fazem a festa junina de Corumbá ser singular, o que garantiu o título de patrimônio imaterial cultural de Mato Grosso do Sul. Nos últimos anos, essa manifestação popular de fé e alegria vem sendo avaliada pela IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) para compor a lista dos patrimônio imateriais do Brasil.

 

Fonte: Assessoria de Imprensa PMC

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